23 de out de 2007

Cultura, diversidade e equívocos.

A Ordem dos Músicos de Mato Grosso diz possuir em torno de cinco mil associados. E parece que eles estão sendo prejudicados porque as prefeituras do interior têm contratado músicos de fora do estado, com dinheiro do Fundo de Fomento à Cultura, para fazer shows que, segundo um músico local e porta-voz da OMB-MT, eles mesmos podem fazer. E pra dar um jeito nessa questão de "estrangeiros" na cena musical mato-grossense, procuraram os Deputados José Riva e Walter Rabello.

Não dá pra saber se eles - Ordem dos Músicos - propuseram ou se foram os Deputados que encontraram a solução: nesse palco não toca e nem dança gente de fora. Pronto, está resolvido. Através de uma lei estadual, o show será somente com gente nossa, (de Mato Grosso)!!! Milhares de "showzeiros" locais devem estar felizes com a 'propositura'.

Ah! Mas nem todo mundo acha que o show deva ser só com participação local, há aqueles - o povo do cinema, da literatura, das artes cênicas, das artes visuais, das danças, do hip-hop e funk entre outros - que defendem shows com ampla diversidade e intercâmbios, independente de endereço ou local de nascimento do artista, pois sabem que isto é que constitui a dinâmica da cultura e que as sociedades conquistaram seus avanços ancoradas e estimuladas pela diversidade e pelos intercâmbios culturais.

Entretanto, além de outros terem a certeza de que os shows não devem se constituir de uma única expressão no palco, no caso a expressão local - temos, de repente, uma única entidade de classe (que não fala por todos os músicos) se transformar na voz da cultura em Mato Grosso, assume o papel e voz do diverso Segmento Artístico Cultural. Como podemos ver registrado em texto no site do Deputado Riva - "Esta propositura de Riva e Rabello causou no segmento artístico sentimento de confiança e esperança de mudanças motivo que levou os Deputados solicitarem discussão ampla sobre o assunto". E aqui que cabe informar-lhes, Deputados Riva e Rabello, que a Ordem dos Músicos não fala em nome da cultura de Mato Grosso.

A Ordem dos Músicos fala em seu nome e de seus interesses, que até podem representar o desejo da maioria de seus associados. Será? Mas que não coadunam com os interesses de outras entidades, instituições e profissionais envolvidos com as lides do fazer cultural. E, dito isso, é preciso, caros Deputados, que os senhores reconheçam e insiram em seus sites e em seus pronunciamentos esta informação: de que foram procurados por uma única entidade e a nomeie.

Destaque-se a ainda que não é o interesse e menos ainda o entendimento de todos os músicos desse estado. E também é preciso reconhecer que, no mundo da cultura de Mato Grosso, existem outros "atores" e interesses que não são supérfluos e tampouco desqualificados. São aqueles que acreditam no poder transformador da cultura, de gente que não aceita o 'eles que se virem' como resposta, nem para si e nem para Mato Grosso. Porque, e isso sim é importante, o que é preciso defender não é a reserva de mercado ou o monopólio, equivocamente, proposto por uma entidade. Não é direito da Ordem dos Músicos estabelecer como os shows de outros cidadãos, contribuintes ou entidades deva se organizar e acontecer.

O que necessita ser defendido com vigor permanente, Senhores Deputados, são os artigos inscritos tanto na Constituição Federal quanto na Estadual no que se refere aos direitos culturais, de informação e de comunicação. O que deve ser atacado é a xenofobia, essa excrescência prima-irmã do fascismo.

Ah, em tempo! E com as prefeituras alguém conversou? Porque aparentemente o problema começa lá, não é mesmo? Não são elas que querem - contratam - shows com rostos e sons de além de nossas fronteiras. E por que é que esses shows têm satisfeito ao paladar de nossos prefeitos Mato Grosso adentro?


Sergio Luiz S. Brito, documentarista, e Wander Antunes, contista e roteirista de histórias em quadrinhos, são membros do Fórum Permanente de Cultura MT.

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