24 de mar de 2006

HISTÓRIA DO CINECLUBE ZUMBIS


O dia 20 de novembro de 2004 é um marco do Cineclube Zumbis. Nesse dia um grupo de militantes da luta de negros e negras organizou o “Dia da Consciência Negra” na UNEMAT em Sinop, cidade que se situa a 500 km ao norte da Capital, Cuiabá. O evento que se esperava algumas poucas dezenas de participantes contou com cerca de 250 pessoas com a cobertura de quatro canais de televisão. Este fato impulsionou os militantes a prosseguir a luta. Dentre outras iniciativas, surgiu a idéia de exibir um filme sobre a temática em questão. No dia 22 de dezembro exibimos o filme “Hurricane”, baseado em uma história verídica de perseguição racista nos Estados Unidos. Novamente uma surpresa: com pouca divulgação, mais de 50 pessoas compareceram. Ânimo renovado, decidimos continuar com filmes todas as quartas-feiras, passando aos domingos com a volta às aulas.

Inicialmente exibíamos os filmes em uma sala de reuniões na UNEMAT. O espaço de cinema foi se ampliando, um grupo foi se constituindo em torno da proposta. Em algum momento decidimos então nos apresentar como grupo. Firmamos um acordo com a Coordenação do Campus da UNEMAT de Sinop para exibição com caráter essencialmente educativo, sem fins lucrativos, todos os domingos, o que vem funcionando regularmente desde o princípio de 2005. Resolvemos então escolher um nome. O primeiro que surgiu foi “Cineclube Zumbi”, alusivo ao Dia da Consciência Negra quando o concebemos. Uma pessoa do grupo sugeriu que chamássemos de “Zumbis”, posto que “Todos Somos Zumbis”, ou seja, resistentes lutadores. A idéia foi aceita de pronto e, desde então, temos atuado como “Cineclube Zumbis”.
Conhecemos propostas diversificadas de Cineclubes. Vários cineclubes privilegiam a exibição de filmes de circuitos alternativos, posto que os demais já tem espaço garantido quando de cunho comercial. Somos inteiramente favoráveis a essa linha política. No entanto, o Cine Zumbis foca fundamentalmente o público. Entendemos que os trabalhadores de baixa renda precisam ter acesso ao conjunto total do acervo cinematográfico, para formar massa crítica, o que os cinéfilos mais de vanguarda tiveram a oportunidade de fazer. Por isso mesclamos todo tipo de filme, desde a filmografia mais de vanguarda, como filmes do circuito comercial, alguns hollywoodianos, inclusive. Entre um filme e outro “mais normal” ao grande público, intervimos com outros do circuito mais alternativo, como “Terra e Liberdade”, “Kiriku e a Feiticeira” e outros que ainda estão “Na Mira”
Privilegiamos filmes com temáticas sociais, questões como “a luta da mulher”, “de negros e negras”, “portadores de necessidades especiais”, “da classe trabalhadora em geral”. Procuramos manter contato com agrupamentos organizados que são mobilizados quando agendada uma temática inerente a sua luta: “Kiriku e a Feiticeira” foi sugerido pela Coordenação do Curso de Educação Anti-Racista; no dia 20 de março, dia mundial de luta contra a invasão do Iraque pelas tropas imperialistas, o MST marchou 12 km para assistir o filme “Fahrenheit”, do Michael Moore. Aproveitamos também o espaço de mídia para cobrir datas especiais, escolhendo filmes alusivos a tais datas: Dia das Mães, exibimos “Olga”. Recentemente voltamos a participar da Semana da Consciência Negra, exibindo filmes como “Uma Onda no Ar” e “Malcolm X”, em parceria com o AFRO-MIR (Movimento Pró-Igualdade Racial), o CINEMAT (Projeto de Cinema do Departamento de Letras da UNEMAT) e o MST de Sinop e da cidade de Cláudia, MT. Temos trabalhado de modo solidário com o CINEMAT em várias ocasiões, dentre estas, uma parceria com o Cinema BR em Movimento com os filmes “Fé” e “Cristina Quer Casar”, este último apresentado no “Acampamento Canudos” do MST em Cláudia, MT.
Em uma cidade onde a cultura oficial dos “novos ricos” é ditada por aquilo que é anuído por “Gugus e Faustões”, não temos descuidado da música. Meia-hora antes dos filmes, exibimos “musicais” de MPB, Rock and Roll, Hip Hop e outros, atraindo um público de jovens da classe trabalhadora que não se identifica com os esquemas comerciais locais. Mas a música não está relega apenas às preliminares: já exibimos “The Wall” e “Diário de Woodstock” como atração principal. O meio-ambiente também tem sido lembrado: em parceria com a “Associação de Ecologia e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Matogrossense" (ECODAM) exibimos “Fitzcarraldo”. Não poderia faltar nossa ação em relação às “crianças”: próximo ao Dia da Criança exibimos “O Menino Maluquinho”, de Ziraldo, antecedido por apresentações de danças, teatro, música, com crianças.
Em dezembro passado, quando comemoramos nosso primeiro ano de existência, conseguimos atingir uma meta que estivemos perseguindo: o debate após às exibições. O primeiro filme debatido foi “Cazuza” no dia 4 de dezembro, data próxima ao “Dia Mundial de Luta Contra a AIDS”, dia 1º de dezembro. Compareceram representantes do projeto de DST/AIDS da UNEMAT e da Secretaria Municipal de Saúde de Sinop e uma representante do AFRO-MIR, pois o movimento de luta contra a AIDS elegeu o tema “preconceito racial” como foco no ano de 2005. A AIDS tem se alastrado e vem destruindo a “Mama África”. Este tema já havia sido lembrado em junho no “Dia do Orgulho Gay e Lésbico”, quando exibimos “Filadélfia”.
Neste ano de 2006, estivemos expandido nossas relações e criamos em parceria com o núcleo em Sinop da CUFA (Central Única das Favelas) o Cine Favela, cinema no bairro com filmes nacionais e temáticas inerentes à vida sofrida do pobre povo trabalhador. Os filmes são exibidos na Associação dos Deficientes Físicos de Sinop (ADFS), onde a CUFA também promoverá curso gratuito de “break” para crianças.
Para 2006, vários projetos estão sendo pensados. Alguns membros do Cine Zumbis, propuseram junto a órgãos de fomento, projetos de pesquisa que leva o cinema para a sala de aula. No horizonte, pretende-se propor um projeto de pesquisa que trate de viabilidade social da implantação de um curso regular universitário sobre “Cinema Popular”, cinema ao alcance de todos, que atenda a demandas populares. Em parceria com a CUFA de Cuiabá, existe a possibilidade neste ano de trazer para realização de oficinas e palestras, o Quak (um dos produtores do documentário “Falcão” exibido no Fantástico da Rede Globo) e o cineasta Cacá Diegues.

FRONTEIRAS
Recentemente o Cine Zumbis, em parceria com a “Ózcar Áudio e Vídeo Digital”, com Apoio da UNEMAT, produziu um documentário chamado “Fronteiras
[1]”2, que trata das duras condições de desenvolvimento da mulher trabalhadora do norte do Mato Grosso. Fronteiras foi o único filme do Mato Grosso classificado para participar do “I Festival de Cinema Feminino da Chapada dos Guimarães, MT”. Neste Festival, tivemos a oportunidade de fazer um curso de Roteiro com o cineasta Diogo Gomes, com quem contamos para futuros projetos de filmes. De fato nos propusemos em realizar novos documentários com vistas à participação nos dois próximos festivais de cinema feminino. Para tal, encaminhamos um projeto de pesquisa, que resultará em documentários, junto ao Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) em parceria com a UNEMAT e o Centro de Formação e Atualização do Professor (CEFAPRO) da Secretaria de Estado da Educação do Mato Grosso (SEDUC), responsáveis por um curso de “inclusão de gênero” no currículo escolar. Parte deste trabalho inclui a realização da “I Mostra de Cinema Feminino” em Sinop com os filmes do festival da Chapada dos Guimarães em parceria com o grupo “Tudo Sobre Mulheres”3, realizador do festival. Como pensamos nossa ação política necessariamente articulada ao nosso mundo de militância, ambiente acadêmico e profissional, assumimos o setor de produção de áudio e vídeo da seção em Sinop do projeto “Casa Brasil”, projeto de inclusão digital do governo federal, que tem na UNEMAT em Sinop um “parceiro estratégico”. Neste campo profissional e acadêmico, projetamos ainda produzir dois filmes baseados em Pesquisa científica: “A Mulher do Mateiro” e “Teorema de Pitágoras”, que serão formuladas propostas junto a órgãos de fomento; este último está sendo pensado como forma de incluir o cinema no desenvolvimento de “metodologia de ensino através da proposta de Projetos”, conforme proposta por José Pacheco, idealizador da “Escola da Ponte”4 de Portugal.
Enfim, o Cineclube Zumbis pretende contribuir com as lutas do povo oprimido, combatendo toda e qualquer forma de opressão e de exploração. Nos próximos anos, estaremos ampliando o projeto para a formação de um “Centro Cultural Zumbis”, com bar cultural, Videtoteca e Biblioteca (acervo alternativo constituído por empréstimo), salas de leitura, som e projeção. No plano da participação do movimento cineclubista, participamos ativamente da Lista de debate virtual do “Conselho Nacional de Cineclubes” (CNC), com filiação a ser feita em breve, temos buscado nos integrar também com o “Movimento Novo Cineclubismo”. O Cine Zumbis conta ainda com a colaboração de “zumbis” nas cidades de Campinas (SP), Vila Velha (ES) e Caxias do Sul (RS).

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