21 de mai de 2010

Projeto Pixaim questiona padrões de beleza e incentiva a aceitação do cabelo “ruim”

Coordenadora do projeto critica o modelo estético hegemônico e acredita que ele estimula o preconceito racial
Reportagem LEDA SAMARA
Edição NATASHA ROMANZOTI
CUFA-MT
Oficinas de leitura e bate-papo são algumas das  ações do projeto
Oficinas de leitura e bate-papo são algumas das ações do projeto
CUFA-MT
Oficinas de trança permitem as mulheres aceiterem  seu cabelo e gerar renda
Oficinas de trança permitem as mulheres aceiterem seu cabelo e gerar renda
CUFA-MT
Além do cabelo, outros aspectos da cultura afro,  como o hip hop, são valorizados
Além do cabelo, outros aspectos da cultura afro, como o hip hop, são valorizados

Nas capas de revista, nos programas de televisão, nas passarelas, desfilam as mulheres mais “belas” do país. Os padrões estéticos atuais determinam o que uma mulher precisa para ser bonita e estampam nas revistas de moda os exemplos a serem seguidos. Para a mulher da “vida real”, a obsessão por perder alguns quilinhos ou por deixar o cabelo impecavelmente liso faz parte da rotina. Mas por que essa busca incessante? Por que é tão difícil se aceitar?

O Projeto Pixaim, realizado pela sede mato-grossense da Central Única das Favelas – CUFA –, trabalha justamente com o questionamento dos padrões de beleza atuais, incentivando a aceitação do cabelo das mulheres negras. A CUFA é uma organização reconhecida internacionalmente, presente em todos estados brasileiros e em alguns países latino-americanos e europeus. A entidade visa desenvolver ações sociais para integrar a população da periferia, em sua maioria formada por pessoas negras. Em entrevista ao Jornal Comunicação, a coordenadora de projetos da CUFA-MT, Neusa Baptista, fala sobre o Pixaim.

Jornal Comunicação: Qual é o padrão de beleza atual e de que forma ele fomenta o preconceito?

Neusa Baptista: No Brasil, as classificações de raça passam pela cor da pele e pela textura do cabelo. É a aparência, e não a origem, que conta. Embora mais da metade da população se declare negra, ainda não vemos o negro como padrão de beleza. Xuxa, Gisele Bundchen, Angelina Jolie e outras beldades brancas são sempre lembradas quando se fala de modelos de beleza. Nas passarelas, as brancas se destacam, assim como nas revistas de moda e até mesmo entre as bonecas infantis. Embora hoje já se discuta uma volta ao padrão natural de beleza (algumas celebridades estão preferindo serem fotografadas ao natural e está em discussão uma lei que obriga as agências de publicidade a informarem o leitor quando for utilizado o Photoshop nas fotografias), ainda há um padrão de beleza e ele é o branco. Com certeza, esse padrão alimenta o preconceito contra todos que estão fora dele; para os homens e mulheres negros, alimenta ainda o preconceito racial, uma vez que a estética negra não está contemplada como modelo de beleza.

Comunicação: Qual a importância em discutir a aceitação do cabelo "pixaim"?

Neusa: O cabelo crespo é uma das marcas da estética negra e, ao lado da cor da pele, está no topo dos itens utilizados para classificar uma pessoa como negra ou outras gradações de cor (morena, chocolate, mulata etc). Para responder ao apelo estético pelo padrão branco – o cabelo liso – muitas mulheres negras agridem seu corpo com o uso de fórmulas de alisamento à base de produtos cáusticos, que degradam o cabelo e o couro cabeludo, e agem negativamente sobre a auto imagem da mulher. O cabelo liso ainda é o ideal de muitas negras, e o crespo é visto como ‘problemático’, ‘ruim’, ‘inadequado’, necessitando de algum tipo de modificação para ser aceito socialmente. A importância está justamente em contrapor este tipo de pensamento, trazendo para as mulheres opções que valorizem o cabelo e a cultura negra.

Assumir a identidade é importante em qualquer situação. Acho que não dá para ser feliz sem isso! Para as mulheres negras, usar uma trança muitas vezes é parte disso. Mas eu sempre digo que é um processo demorado, às vezes leva a vida toda. Pois a cada vez que se assume essa identidade afro, tem que lidar com uma carga maior de preconceito.

Comunicação: Que atividades o projeto oferece as participantes?

Neusa: Hoje está acontecendo a Caravana Pixaim. Vamos visitar 30 municípios do interior, com apresentações teatrais da peça “Cabelo Ruim”, em parceria com o Grupo Teatral Tibanaré. Também faremos o lançamento e doação do livro “Cabelo Ruim?” às escolas, e oficinas de tranças afro.

Além disso, o Projeto Pixaim é, desde o ano passado, um Ponto de Cultura, que tem suas atividades realizadas no Centro Esportivo e Cultural da CUFA-MT, em Cuiabá. Atualmente, oferece oficinas de tranças afro e bonecas negras voltadas às mulheres da comunidade do bairro. Também está montado um telecentro, um cantinho de leitura infantil e um ateliê de costura, que vai ser o ponto de produção das mulheres formadas na oficina de bonecas negras.

Comunicação: De que maneira o projeto contribuiu para a aceitação da identidade negra?

Neusa: O Projeto Pixaim trabalha os eixos da auto aceitação, valorização da estética negra e de incentivo ao empreendedorismo. Temos visto entre as mulheres atendidas que isso age de duas formas: primeiro pela formação crítica que é recebida nas oficinas, por meio de bate-papos sobre temas como a identidade, beleza, o empreendedorismo, autoestima, relação de gênero; segundo, pela aquisição de um novo conhecimento (em tranças ou bonecas) que permite que elas possam dar início a uma nova etapa em suas vidas, gerando renda e também se integrando às ações do Projeto, atuando no Salão de Beleza Comunitário ou o Ateliê Comunitário. Acredito que isso contribui não somente para a aceitação da identidade afro da mulher, mas também de sua identidade enquanto moradora da periferia, valorizando a ambas.

Comunicação: Que outros aspectos da cultura afro devem ser valorizados para fortalecer essa identidade?

Neusa: A CUFA realiza projetos que valorizam uma gama de aspectos da cultura negra, na música, no esporte, no artesanato, no grafite, na estética. Eu vejo este trabalho como uma valorização da realidade do negro urbano, da cultura dos guetos. Com isso, se fortalece a identidade. Muitos jovens se encontram, se redescobrem como dançarinos, grafiteiros, rappers ou até mesmo como lideranças comunitárias a partir da intervenção do trabalho da CUFA.

Comunicação: Você acha que o projeto faz os participantes mudarem suas concepções e questionarem os valores estéticos hegemônicos?

Neusa: É o que esperamos que aconteça. Mudar concepções é um desafio, e depende muito da própria pessoa. O que estimulamos é que pelo menos se crie o questionamento destes padrões. Aí, haverá espaço para mudanças.

Nós da CUFA sentimos que conseguimos transmitir a estas mulheres algumas questões, tais como: existe mesmo padrão de beleza? Qual é ele? Em que eu me enquadro? Quais as dificuldades para quem não se enquadra? Por que a estética negra não é valorizada? Elas percebem que as oficinas do Projeto Pixaim não são como as outras, têm um quê a mais, tanto no conteúdo como na forma, pois valorizamos o saber que a mulher traz, tudo é ensinado na base do bate-papo, da informalidade. Acho que isso as atrai e as estimula.

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